O domingo (23) amanheceu em silêncio reverente na Paróquia Cristo Redentor. Às 7h, a Santa Missa abriu o caminho para a saída do Círio de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Abaetetuba. O tema deste ano, “Maria, modelo de fé e esperança”, em sintonia com o Ano Santo do Jubileu da Esperança, conduziu o olhar dos devotos à mãe que confiou plenamente nos desígnios divinos.
Logo no início do percurso, a multidão anunciava a emoção que moldaria toda a caminhada. Começando na rodovia Dr. João Miranda e seguindo pelas avenidas D. Pedro II e Barão do Rio Branco, formou-se um corredor de homenagens. Famílias erguiam cartazes, jovens carregavam livros em sinal de agradecimento e devotos compartilhavam conquistas discretas, porém profundas: a casa alcançada, a vaga no vestibular, a superação de enfermidades…
“Neste ano, um sentimento diferente tomou minha família. Viemos agradecer pela nossa casa. Não existe palavra melhor que gratidão. Só Deus explica algo tão maravilhoso”, afirmou Luís Moraes, promesseiro que caminhava emocionado ao lado dos parentes.
A cada esquina, manifestações de fé se misturavam a gestos de solidariedade. Grupos distribuíam água e lanches aos peregrinos, bombeiros civis auxiliavam quem avançava ajoelhado, e a cidade revelava a força espiritual que o Círio desperta em seu povo.
Entre os símbolos mais queridos estava novamente a tradicional Turma do Pote, que há 41 anos percorre o trajeto com potes de barro cheios de água fresca, suspensos por uma vara de taboca. O grupo renovou uma tradição que se tornou parte da identidade religiosa do município. “A devoção torna tudo leve. Venho de Belém todos os anos para caminhar com o grupo. Aqui eu rezo, sirvo, distribuo água e animo quem precisa. Não há explicação. É fé”, relatou seu Nilton Magalhães, integrante da turma.
Ao longo do caminho, cenas tocantes reforçavam o espírito do Círio: crianças vestidas de anjos, famílias aguardando a passagem da imagem e idosos segurando terços que atravessaram gerações. A espiritualidade de Abaetetuba parecia pulsar em cada gesto.
O clima de reverência se estendeu para além da procissão terrestre. Na sexta e no sábado, o Auto da Padroeira reuniu teatro e música em quinze estações que celebraram a história e a fé do povo. Houve ainda o Círio Fluvial, que partiu da comunidade ribeirinha do Baixo Itacuruçá até o porto do DNIT, de onde saiu a Motorromaria. À noite, a cidade foi iluminada pela luz das velas na transladação entre a Catedral de Nossa Senhora da Conceição e a Igreja Cristo Redentor.
“O Círio expressa fraternidade e união. Renovamos nossa esperança ao caminhar com Maria, acreditando em dias melhores”, destacou Willian Silva, coordenador de procissões.
A Prefeitura de Abaetetuba também esteve presente na celebração. Um palco montado em um ponto estratégico da rota da procissão recebeu a apresentação da cantora Liah Soares, que emocionou os fiéis. Antes da procissão, equipes municipais realizaram serviços de limpeza urbana, manutenção das vias e poda de árvores. Durante o cortejo, o Departamento Municipal de Trânsito, Transporte e Mobilidade, junto aos garis da Secretaria de Obras e Viação, garantiu organização no tráfego e limpeza das ruas.
“Amado povo de Deus, celebramos um dia grandioso. Que a proteção de Nossa Senhora da Conceição acompanhe suas famílias e conceda paz”, declarou o bispo Dom José, dirigindo-se aos devotos que lotavam as vias.
Para muitos, o Círio representou reencontro interior; para outros, significou gratidão por graças alcançadas. Em todos, reacendeu-se a certeza de que a padroeira segue guiando o município com ternura e firmeza. “É um momento de renovação da fé e fortalecimento dos laços familiares”, sintetizou a pedagoga Marilena Gomes, devota de Nossa Senhora da Conceição.
Segundo o 15º Grupamento Bombeiro Militar, 27 mil pessoas participaram da procissão. O número traduz a dimensão da fé que tomou as ruas do município.
Texto: Ramon Pinheiro/ Revisão: Nado Araújo.

