Às vésperas do Círio de Nazaré, em Belém, as cores vivas dos brinquedos de miriti anunciam mais uma vez a chegada de um dos eventos mais simbólicos da cultura amazônica: a Feira do Artesanato de Miriti 2025, promovida pela Prefeitura de Abaetetuba e coordenada pela Fundação Cultural Abaetetubense, de 8 a 12 de outubro, na Praça Dom Pedro II, em Belém.
Com o tema “Tradição, Arte e Sustentabilidade rumo à COP 30”, a feira conecta o saber artesanal de Abaetetuba, berço do brinquedo de miriti, às discussões globais sobre meio ambiente e economia criativa. Cinquenta estandes com peças únicas, produzidas por artesãos, transformam a leveza da madeira de miriti em barcos, pássaros, peixes e sonhos.
“Representa a manutenção de uma tradição muito importante para o nosso povo”, destaca a prefeita Francineti Carvalho, ao lembrar que o artesanato de miriti é mais que arte: é identidade. “A prefeitura tem feito uma série de ações para fortalecer essa tradição, não apenas no período do Círio. Apoiamos a feira com estrutura, transporte e divulgação. Essa arte gera renda, autoestima e orgulho para Abaetetuba”.
Desde o primeiro Círio de Nazaré, em 1793, os brinquedos de miriti acompanham a procissão, compondo o imaginário visual da maior manifestação religiosa do país. Para Fausto Fernandes, diretor da Fundação Cultural de Abaetetuba, a feira é a expressão viva da economia criativa amazônica. “Essa é a 28ª edição e tem um valor cultural e econômico imenso. O brinquedo de miriti é conhecido no Brasil e fora dele. Todo o processo, da extração da matéria-prima à confecção, envolve sustentabilidade e garante o sustento de famílias inteiras que vivem dessa arte.”
E não há quem resista ao encanto do miriti. O carnavalesco Milton Cunha, um apaixonado confesso, lembra com emoção de sua infância. “São brinquedos da minha infância. Eu adorava o roque-roque. Eles têm uma leveza e um lirismo que tocam a alma.”
Na voz dos próprios artesãos, a tradução do verdadeiro significado dessa tradição. Acivaldo Negrão, um dos expositores, fala com brilho nos olhos: “Para nós é uma oportunidade muito grande participar da feira e do Círio, levando nossa cultura e nossa ancestralidade. É geração de renda, de vida, e também de reconhecimento para Abaetetuba.”
Além dos estandes, um grupo de 40 girandeiros leva seus brinquedos às ruas, acompanhando as manifestações religiosas com cores e devoção, mantendo viva a herança dos antigos mestres, transformando o miriti em um símbolo de fé que se renova a cada geração.
Mais que uma arte, o brinquedo de miriti é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Pará e do Brasil pelo Iphan e declarado patrimônio dos paraenses pela Lei Estadual nº 7.282/2009.
Texto: Ramon Pinheiro.

